O pastor
“Não será o pastor parte integrante deste ecossistema que é a Serra da Estrela? Fará sentido passar por alto a presença e intervenção desta lendária figura da vida pastoril e símbolo heráldico destas serranas terras?” Fernando Vieira de Sá, preocupado com o curso das coisas, interrogava-se sobre este dilema fazendo-nos refletir, afinal de contas, sobre o nosso próprio papel numa sociedade em mudança evidente e acelerada.
“O pastor que tem sido cantado por poetas, como Vergílio, Gil Vicente e tantos outros, e forma, com o seu cão, o seu cajado, manta ao ombro e tarro com magras migalhas de pão para ensopar no almece e compartir uma refeição fugaz com o seu companheiro de percurso, a síntese de uma trama sociológica, económica e cultural de uma civilização, de um estado de desenvolvimento, de um circunstancialismo político e ético?
Seria lícito passar-lhe ao lado sem o sentir, sem o reconhecer, sem o avaliar?
É evidente que, se o fizéssemos, mutilaríamos este complexo sistema que é a pastorícia. O pastor, de facto, é uma peça fundamental de todo este ecossistema, que da sua presença no atual estado de coisas depende ser ou não possível o pastoreio, o mesmo é dizer haver ou não rebanhos.
E é assim que, por virtude de uma progressiva rarefação deste valioso elemento humano no funcionamento de uma economia pastoril e transumante, se tem inviabilizado, um pouco por toda a parte, a ovinicultura portuguesa.”