O cão “Serra da Estrela”

Companheiro inseparável de rebanhos e pastores, o cão “Serra da Estrela” – hoje, geralmente, de pêlo fulvo (amarelo-torrado) mas outrora, certamente, exibindo o colorido dos mastins onde entronca – faz parte da história da própria pastorícia.

Elemento de guarda do rebanho, a sua função era por demais importante no tempo em que a Serra albergava uma fauna bravia, caso do lobo, que não desdenhava um borrego extraviado e, em ocasiões mais extremas, um ataque ao próprio redil.

Dentre as várias descrições do “Serra”, escolhemos a de António do Prado Lacerda, que, não sendo, decerto, rigorosa é, indiscutivelmente, uma das mais sugestivas.

“Os cães da Serra da Estrela, serra grossa, negra, altaneira e titânica, ostentam os estigmas do meio físico e animado que os gerou entre fragões e rugidos de feras e antigos leões; o meu cão, por ser legítimo filho da hermínia serra tem a braveza da fera silvática e a sociabilidade da social domesticidade, a vigilância da pouco sonolenta Estrela d’Alva, e a corpulência dos gigantescos paquidermes terciários, e a vista e ligeireza das águias; eis o retrato prosaico do meu cão chamado – Arrogante, da genealogia do cão de Viriato. (...)

Nos matos é um mastim, mata-lobos, nos currais e tendas é um titânico cerbero, nos livres aposentos de Diana é um caçador veloz, sagaz, sôfrego e fero.”

Mas caso se prefira contar a história de um outro modo e sem abandonar o espírito do texto antecedente, pode optar-se por Brás Garcia de Mascarenhas que, no seu Viriato Trágico, nos traça de forma contundente a morfologia do animal, dela quase se podendo deduzir o seu carácter.

“Largo d’espáduas, de olhos carrancudos Rasgada a boca, orelhas derrubadas Ventas negras, focinho cabeludo Beiços caídos, garras encrespadas Fornidos pés e mãos, corpo membrudo Seco nas ancas, gordo nas queixadas, Curvas unhas e dentes, rabo grosso Grosso e curto nos ombros e pescoço.”

Não perdendo de vista as descrições anteriores e fixando-nos em algumas das características constantes do actual estalão da raça, diremos que o cão “Serra da Estrela” é convexilíneo, molossóide, tipo mastim, de olhar vivo, calmo e expressivo, guarda de quintas, habitações e rebanhos e utilizado na própria defesa pessoal, respeitável pela sua poderosa agressividade para com os estranhos e sendo dócil junto do seu proprietário.

Mas o “Serra” pode exibir pêlo comprido, liso ou ligeiramente ondulado, apresentando-se desigual em certas regiões, ou pêlo curto, liso, homogéneo em todo o corpo, sendo ligeiramente mais curto na cabeça e membros.

Quanto à cor, admite-se o unicolor: amarelo, fulvo e cinza em todos os gradientes de intensidade de cor; o lobeiro – fulvo, amarelo e cinza, nas tonalidades claro, comum ou escuro; o raiado também fulvo, amarelo ou cinza. As malhas brancas são admitidas apenas nas extremidades dos pés e mãos e até ao máximo de 1/3 da extensão total do peito e parte anterior do pescoço.